Nº53 - SETEMBRO DE 2018

Ponto de Vista

Gustavo Cimadevilla é o novo presidente da Alaic

O atual Presidente da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación-ALAIC, Gustavo Cimadevilla, nosso entrevistado desta edição do Informativo Socicom é argentino, Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Rio Cuarto (2002, UNRC), província de Córdoba, Argentina, e Mestre em Extensão Rural pela Universidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, com Pós-Doutorado no Centro de Investigaciones Postdoctorales /FACES- Universidad Central de Venezuela.

 

Cimadevilla é professor Associado Efetivo e Coordenador do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da UNRC. Já exerceu anteriormente, a vice-Presidência da ALAIC, entidade com a qual tem vinculação desde 1997, tendo sido coordenador de Grupo de Trabalho e Diretor Científico. Atuou, também, na FELAFACS, onde recebeu o prêmio de melhor Tese de Doutorado em 2003. Foi, ainda, presidente da Federación Argentina de Carreras de Comunicación Social - FADECCOS (2004-2006), onde criou a Revista Argentina de Comunicación. Atuou, também, como membro consultivo internacional da IAMCR – Association for Mass Communication Research.

 

Em entrevista concedida a diretora de relações internacionais da Socicom, Ana Regina Rego, Cimadevilla analisa a trajetória institucional dos 40 anos da Alaic, seu papel no agendamento da discussão de problemas relevantes da área e a importância de José Marques de Melo na consolidação da entidade.

 

IS - Sabemos que a ALAIC completa, agora em 2018, 40 anos de existência,  fale-nos um pouco do contexto de sua criação e de sua importância para a  a pesquisa e pensamento crítico comunicacional na América Latina?

 

GC - ALAIC, Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação, foi o resultado de uma combinação de fatores que convergiram na segunda metade dos anos setenta para a criação da entidade em novembro de 1978. Entre esses fatores podemos considerar, especialmente, a política, se pensarmos que em vários países latino-americanos haviam se estabelecido governos de fato, autoritários e repressivos, totalmente desinteressados pela de imprensa e pela crítica social a seus regimes e frente a esse cenário a intelectualidade procurava formas para romper com esse estado. Também o clima da época, típico de uma década em que a possibilidade de gerar sociedades mais independentes e soberanas era vista como uma alternativa - recordar, por exemplo, o Movimento dos Países Não Alinhados - e para isso tínhamos que pensar coletivamente. É claro o papel da UNESCO na facilitação de reuniões e na promoção de políticas que estimulem a liberdade de direitos, a liberdade de fluxos de informação e a autodeterminação cultural. Fatores que se somaram à existência de um grupo de intelectuais com alguma experiência em nível internacional que entenderam e previram a necessidade de aproximar seus esforços para gerar institucionalidade em um campo relativamente novo na região.

No livro que a ALAIC publica para comemorar suas quatro décadas, intitulado Da Mimeografia às Redes Digitais - Narrativas, testemunhos e análise do campo comunicacional no 40º aniversário da ALAIC (D. Crovi Druetta e G. Cimadevilla, Org.), materiais valiosos são apresentados para pensar a trajetória institucional, de seus gestores e a evolução do campo neste período. Entrevistas com seu primeiro presidente, Aníbal Gómez, e com aqueles que o seguiram, além de crônicas e análises de Pasquali, Jesús Martín Barbero e José Marques de Melo, entre tantos outros atores-chave, permitem avaliar com clareza essa rica história intelectual da instituição e seu povo.

Sem dúvida, a ALAIC representou um ponto de partida sobre as fronteiras nacionais, que deu vida à circulação do pensamento crítico latino-americano e conseguiu colocar na agenda os problemas mais relevantes do setor.

 

IS - O ano de 1988 é conhecido como o ano de "refundação" da entidade.  José Marques de Melo atuou nesse processo e incentivou um renascimento da instituição, fale nos um pouco sobre os acontecimentos que fortaleceram a entidade e os rumos que a ALAIC tomou desde então.

 

GC - Como muitos podem recordar, a década de oitenta, que na literatura é lembrada  como a década "perdida" também afetou ALAIC que o tempo não tinha recursos e forças institucionais para fazer frente a falta de financiamento para as instituições culturais e científicas, inclusive, instituições universitárias e seus centros de pesquisa.

Nesse quadro de certa "quietude" institucional, a figura de Marques de Melo foi fundamental. Por ocasião de reuniões internacionais, como as promovidas pela IAMCR / AIERI Marques, incentivou a possibilidade de juntar vontade e esforços para relançar a ALAIC em nível regional e internacional. O apoio da INTERCOM certamente também foi muito importante e foi por isso que, por ocasião de seu congresso anual em Florianópolis, reuniram-se vários pesquisadores do continente, com forte presença de mexicanos e brasileiros e nesse cenário a ALAIC retornou às “vitrines” acadêmicas pelas mãos de José Marques de Melo, que na oportunidade, foi eleito presidente para cobrir o período 1989-1992.

Nesse sentido, a figura de Marques não só foi essencial por seus esforços em reunir figuras destacadas que representavam o melhor da comunicação na região, mas também porque conseguiu injetar na entidade o dinamismo necessário para fortalecer sua institucionalidade e projetá-la para todos os países da região. Impulso que não mais se deteve e que permitiu que a ALAIC hoje desfrute de reconhecimento e respeito e se constitua como uma referência séria e valiosa para o campo.

 

IS - Uma das principais questões que perpassa as diversas realidades nacionais da América Latina é a existência (ou não)  de sistemas de comunicação verdadeiramente democráticos e inclusivos. Qual o papel da ALAIC na luta pela democratização da comunicação na América Latina?

 

GC - De uma maneira ou de outra, a ALAIC sempre se preocupou em problematizar e fornecer conhecimento para que os sistemas de mídia não operem a partir da concentração ou da anulação dos direitos de informar e comunicar a partir de marco de plena liberdade. Para isso, a entidade possui Grupos Temáticos que investigam de forma ativa e contínua, trocam conhecimentos e discutem posições para proporcionar clareza e propostas que superem as diferentes realidades. Nesse sentido, vale sempre a pena esclarecer que a América Latina tem em sua vasta geografia casos, contextos e dinâmicas muito diversas onde não é necessário generalizar, mas reconhecer as diferenças e delas pensar cada uma das realidades em questão. Em seu website, inclusive, a entidade possui uma janela denominada "Pronunciamentos" onde os membros, entidades afiliadas ou o Conselho de Administração podem compartilhar seus documentos críticos contra as diversas situações que interessam a coletividade.

A luta para democratizar nossas sociedades não tem fim ou um dia em que possamos dizer agora, se somos democráticos e inclusivos. Essas condições, que são tão necessárias para dar viabilidade e dignidade às nossas sociedades, exigem práticas permanentes e é melhor que nossas instituições estejam continuamente engajadas em contribuir para construí-las e sustentá-las.

 

IS- Você é o atual presidente  da ALAIC, eleito no último Congresso da entidade em agosto, na Costa Rica, fale-nos um pouco da composição da atual diretoria e das  principais metas e desafios a serem enfrentados por sua gestão.

 

GC - A entidade, por sua natureza multi-nacional, sempre procurou reunir colegas de diferentes nacionalidades, mas também de gêneros e idades, já que essas composições heterogêneas são as que melhor colaboram na ampliação da visão do amplo conjunto de questões que importam para o campo da comunicação.

Neste caso, a nova diretoria é composta por um Vice-Presidente que é do Uruguai, Gabriel Kaplún, um Diretor Científico do México, Tanius Karam, um Diretor de Relações Internacionais do Brasil, Fernando Oliveira Paulino, uma Diretora de Comunicação que é da Colômbia, Sandra Osses, e uma Diretora Administrativa que é argentina, Daniela Monje, além de mim, que também sou argentino, concordando com o Estatuto que prevê que as duas funções (Presidência e Diretoria Administrativa) sejam de um mesmo país.

Em relação à nossa agenda de trabalho, há muito tempo a entidade trabalha dando continuidade e permanência às atividades que se mostraram substanciais para responder aos seus objetivos. Entre eles, a realização dos congressos e seminários e nos últimos cinco anos, a criação da Escola de Verão; a qual vale a pena acrescentar, a edição semestral da Revista Latino-Americana de Comunicação e o Jornal da ALAIC. Além de seus dispositivos de contato, como o site, redes e Boletim ALAIC para o Dia. Mas sempre há novos desafios e entre eles devemos nos concentrar em atualizar nosso quadro normativo (Estatuto e Regulamentos) e processos de gestão, para favorecer o diálogo com o associados e todos aqueles que se aproximam e estão interessados na entidade. As associações científicas não podem atuar como clubes seletos, mas, ao contrário, devem se abrir cada vez mais para facilitar que os estudiosos e pesquisadores interajam e busquem gerar conhecimento e espaços para compartilhá-los com públicos cada vez mais amplos.

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Ponto de Vista

Gustavo Cimadevilla é o novo presidente da Alaic

O atual Presidente da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación-ALAIC, Gustavo Cimadevilla, nosso entrevistado desta edição do Informativo Socicom é argentino, Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Rio Cuarto (2002, UNRC), província de Córdoba, Argentina, e Mestre em Extensão Rural pela Universidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, com Pós-Doutorado no Centro de Investigaciones Postdoctorales /FACES- Universidad Central de Venezuela.

 

Cimadevilla é professor Associado Efetivo e Coordenador do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da UNRC. Já exerceu anteriormente, a vice-Presidência da ALAIC, entidade com a qual tem vinculação desde 1997, tendo sido coordenador de Grupo de Trabalho e Diretor Científico. Atuou, também, na FELAFACS, onde recebeu o prêmio de melhor Tese de Doutorado em 2003. Foi, ainda, presidente da Federación Argentina de Carreras de Comunicación Social - FADECCOS (2004-2006), onde criou a Revista Argentina de Comunicación. Atuou, também, como membro consultivo internacional da IAMCR – Association for Mass Communication Research.

 

Em entrevista concedida a diretora de relações internacionais da Socicom, Ana Regina Rego, Cimadevilla analisa a trajetória institucional dos 40 anos da Alaic, seu papel no agendamento da discussão de problemas relevantes da área e a importância de José Marques de Melo na consolidação da entidade.

 

IS - Sabemos que a ALAIC completa, agora em 2018, 40 anos de existência,  fale-nos um pouco do contexto de sua criação e de sua importância para a  a pesquisa e pensamento crítico comunicacional na América Latina?

 

GC - ALAIC, Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação, foi o resultado de uma combinação de fatores que convergiram na segunda metade dos anos setenta para a criação da entidade em novembro de 1978. Entre esses fatores podemos considerar, especialmente, a política, se pensarmos que em vários países latino-americanos haviam se estabelecido governos de fato, autoritários e repressivos, totalmente desinteressados pela de imprensa e pela crítica social a seus regimes e frente a esse cenário a intelectualidade procurava formas para romper com esse estado. Também o clima da época, típico de uma década em que a possibilidade de gerar sociedades mais independentes e soberanas era vista como uma alternativa - recordar, por exemplo, o Movimento dos Países Não Alinhados - e para isso tínhamos que pensar coletivamente. É claro o papel da UNESCO na facilitação de reuniões e na promoção de políticas que estimulem a liberdade de direitos, a liberdade de fluxos de informação e a autodeterminação cultural. Fatores que se somaram à existência de um grupo de intelectuais com alguma experiência em nível internacional que entenderam e previram a necessidade de aproximar seus esforços para gerar institucionalidade em um campo relativamente novo na região.

No livro que a ALAIC publica para comemorar suas quatro décadas, intitulado Da Mimeografia às Redes Digitais - Narrativas, testemunhos e análise do campo comunicacional no 40º aniversário da ALAIC (D. Crovi Druetta e G. Cimadevilla, Org.), materiais valiosos são apresentados para pensar a trajetória institucional, de seus gestores e a evolução do campo neste período. Entrevistas com seu primeiro presidente, Aníbal Gómez, e com aqueles que o seguiram, além de crônicas e análises de Pasquali, Jesús Martín Barbero e José Marques de Melo, entre tantos outros atores-chave, permitem avaliar com clareza essa rica história intelectual da instituição e seu povo.

Sem dúvida, a ALAIC representou um ponto de partida sobre as fronteiras nacionais, que deu vida à circulação do pensamento crítico latino-americano e conseguiu colocar na agenda os problemas mais relevantes do setor.

 

IS - O ano de 1988 é conhecido como o ano de "refundação" da entidade.  José Marques de Melo atuou nesse processo e incentivou um renascimento da instituição, fale nos um pouco sobre os acontecimentos que fortaleceram a entidade e os rumos que a ALAIC tomou desde então.

 

GC - Como muitos podem recordar, a década de oitenta, que na literatura é lembrada  como a década "perdida" também afetou ALAIC que o tempo não tinha recursos e forças institucionais para fazer frente a falta de financiamento para as instituições culturais e científicas, inclusive, instituições universitárias e seus centros de pesquisa.

Nesse quadro de certa "quietude" institucional, a figura de Marques de Melo foi fundamental. Por ocasião de reuniões internacionais, como as promovidas pela IAMCR / AIERI Marques, incentivou a possibilidade de juntar vontade e esforços para relançar a ALAIC em nível regional e internacional. O apoio da INTERCOM certamente também foi muito importante e foi por isso que, por ocasião de seu congresso anual em Florianópolis, reuniram-se vários pesquisadores do continente, com forte presença de mexicanos e brasileiros e nesse cenário a ALAIC retornou às “vitrines” acadêmicas pelas mãos de José Marques de Melo, que na oportunidade, foi eleito presidente para cobrir o período 1989-1992.

Nesse sentido, a figura de Marques não só foi essencial por seus esforços em reunir figuras destacadas que representavam o melhor da comunicação na região, mas também porque conseguiu injetar na entidade o dinamismo necessário para fortalecer sua institucionalidade e projetá-la para todos os países da região. Impulso que não mais se deteve e que permitiu que a ALAIC hoje desfrute de reconhecimento e respeito e se constitua como uma referência séria e valiosa para o campo.

 

IS - Uma das principais questões que perpassa as diversas realidades nacionais da América Latina é a existência (ou não)  de sistemas de comunicação verdadeiramente democráticos e inclusivos. Qual o papel da ALAIC na luta pela democratização da comunicação na América Latina?

 

GC - De uma maneira ou de outra, a ALAIC sempre se preocupou em problematizar e fornecer conhecimento para que os sistemas de mídia não operem a partir da concentração ou da anulação dos direitos de informar e comunicar a partir de marco de plena liberdade. Para isso, a entidade possui Grupos Temáticos que investigam de forma ativa e contínua, trocam conhecimentos e discutem posições para proporcionar clareza e propostas que superem as diferentes realidades. Nesse sentido, vale sempre a pena esclarecer que a América Latina tem em sua vasta geografia casos, contextos e dinâmicas muito diversas onde não é necessário generalizar, mas reconhecer as diferenças e delas pensar cada uma das realidades em questão. Em seu website, inclusive, a entidade possui uma janela denominada "Pronunciamentos" onde os membros, entidades afiliadas ou o Conselho de Administração podem compartilhar seus documentos críticos contra as diversas situações que interessam a coletividade.

A luta para democratizar nossas sociedades não tem fim ou um dia em que possamos dizer agora, se somos democráticos e inclusivos. Essas condições, que são tão necessárias para dar viabilidade e dignidade às nossas sociedades, exigem práticas permanentes e é melhor que nossas instituições estejam continuamente engajadas em contribuir para construí-las e sustentá-las.

 

IS- Você é o atual presidente  da ALAIC, eleito no último Congresso da entidade em agosto, na Costa Rica, fale-nos um pouco da composição da atual diretoria e das  principais metas e desafios a serem enfrentados por sua gestão.

 

GC - A entidade, por sua natureza multi-nacional, sempre procurou reunir colegas de diferentes nacionalidades, mas também de gêneros e idades, já que essas composições heterogêneas são as que melhor colaboram na ampliação da visão do amplo conjunto de questões que importam para o campo da comunicação.

Neste caso, a nova diretoria é composta por um Vice-Presidente que é do Uruguai, Gabriel Kaplún, um Diretor Científico do México, Tanius Karam, um Diretor de Relações Internacionais do Brasil, Fernando Oliveira Paulino, uma Diretora de Comunicação que é da Colômbia, Sandra Osses, e uma Diretora Administrativa que é argentina, Daniela Monje, além de mim, que também sou argentino, concordando com o Estatuto que prevê que as duas funções (Presidência e Diretoria Administrativa) sejam de um mesmo país.

Em relação à nossa agenda de trabalho, há muito tempo a entidade trabalha dando continuidade e permanência às atividades que se mostraram substanciais para responder aos seus objetivos. Entre eles, a realização dos congressos e seminários e nos últimos cinco anos, a criação da Escola de Verão; a qual vale a pena acrescentar, a edição semestral da Revista Latino-Americana de Comunicação e o Jornal da ALAIC. Além de seus dispositivos de contato, como o site, redes e Boletim ALAIC para o Dia. Mas sempre há novos desafios e entre eles devemos nos concentrar em atualizar nosso quadro normativo (Estatuto e Regulamentos) e processos de gestão, para favorecer o diálogo com o associados e todos aqueles que se aproximam e estão interessados na entidade. As associações científicas não podem atuar como clubes seletos, mas, ao contrário, devem se abrir cada vez mais para facilitar que os estudiosos e pesquisadores interajam e busquem gerar conhecimento e espaços para compartilhá-los com públicos cada vez mais amplos.